A Constância Do Culto Cristão

Publicado em: 28/06/2008 | Acessos: 1,638 |

Através das formas exteriores e visíveis pelas quais os cristãos cultuam ao Senhor Deus em diferentes épocas históricas e contextos culturais, constata-se o uso veemente de formas estáveis e permanentes. A este fenômeno litúrgico denomina-se "constância".

Apesar das mudanças sociais e eclesiásticas ao longo de dois mil anos vivenciadas pela Igreja, ela mantém notável durabilidade na sua constância litúrgica.

Ainda nos primórdios pode-se observar uma constância litúrgica quanto à estrutura semanal de culto, levantamento de coletas no primeiro dia da semana, realização da Santa Ceia, Batismo, as Orações Públicas Diárias e as Jornadas e Passagens.

Com o passar dos anos, observa-se na Igreja o surgimento de uma organização litúrgica das formas de culto, do tempo, do espaço, etc. Persistiu a Igreja em sua vida litúrgica, atravessando o túnel do tempo sem sair de sua postura e mantendo-se firme na constância do uso de um pequeno número de tipos básicos de ofícios.

Simultaneamente, a constância constatada indubitavelmente na vida litúrgica da Igreja co-existe com a variabilidade.

O observador mais desatento pode detectar com facilidade e nitidez a presença da variabilidade, pois toda comunidade cristã tem uma identidade peculiar. Nas sete cartas às Igrejas da Ásia, encontradas no livro de Apocalipse, encontramos grupos que formam a Única Igreja do Senhor Jesus, mas cada grupo tem a sua face. Estas faces culturais, históricas e sociais oferecem a presença da variabilidade na vida litúrgica da Igreja.

Ao longo de dois milênios a constância é enorme na vida litúrgica Igreja, bem como a variabilidade. Elas andam de mãos dadas. Às vezes, uma sobressai-se mais do que a outra, mas a necessidade de equilíbrio da presença e dosagem de ambas é imprescindível para uma vida litúrgica sadia.

Podemos constatar que em várias ocasiões as comunidades cristãs espalhadas na face do planeta Terra tiveram seus desvios de rota litúrgica, mas sempre houve a exemplo da Reforma Protestante e movimentos esporádicos mais recentes uma preocupação singular por uma volta às raízes do cristianismo. Esta volta às raízes, pertinentemente a este assunto, diz respeito à restauração da prática da constância e variabilidade, sadiamente. Quando isto acontece, o compromisso quanto à constância é ratificado de forma bem consistente e procura-se ampliar os horizontes da variabilidade, ofertando-lhe uma proximidade maior à comunidade.

White enfatiza que "em anos recentes, os cristãos estão mais sensíveis para a importância dos fatores culturais e étnicos na compreensão do Culto Cristão"[1]. Com isto, ele ratifica pauta de assuntos acerca dos quais discorre ao longo de sua obra, quando enfatiza os momentos em que a Igreja sofreu desvios em sua rota litúrgica, sacralizando uma constância de dogmas e formas e passando a ignorar a variabilidade, que naturalmente existe. Entretanto, os reformadores procuraram conduzir os cristãos a se remirem destes erros e com isto, voltou a ser estabelecido o equilíbrio entre a constância e a variabilidade.

A Oração Pública Diária, Batismo, o Culto Eucarístico e Jornadas e Passagens, perfilam a constância no Culto Cristão. Estes tipos embasam a relação cultual da Igreja; eles estão para a Igreja, como os pontos cardeais para o viajante. Eles dão direção ao Culto Cristão. Criam unidade de propósito e ação na Igreja. Facilitam a caminhada litúrgica. Conduzem a Igreja a firmar-se naquilo que é essencial. A Igreja tem firmeza e confiança naquilo que faz liturgicamente diante do Senhor, pois se encontra ancorada através destes tipos.


A constância é fator fundamental para não se perder o que está estabelecido corretamente, mas é preciso ter sabedoria e criatividade para que a mesma não emoldure o essencial numa tela funesta.

A constância pode trazer prejuízos sérios ao Culto Cristão, entre muitos, enumeramos alguns que são citados por White: 1) Monotonia; 2) Pregação configurada à imagem do pregador; 3) Símbolos da Fé transformados em peças decorativas.

A monotonia tem afastado muitas vezes os cristãos de uma vida litúrgica ativa. É muito comum encontrar pessoas confessando que não freqüentam os cultos de suas respectivas igrejas, pois já sabem todo o programa litúrgico, ou seja, já sabem toda a rotina e podem até descrever qual Salmo será lido em Culto Eucarístico ou em outra celebração.

Constantemente, encontramos comunidades em que, rotineiramente, a pregação da Palavra está configurada à imagem do pregador. White defende que estes pregadores estão reescrevendo a Escritura[2] ao pregarem segundo suas preferências pessoais. Se ele é conservador, liberal, ou modernista, prega segundo as próprias preferências. Não expõem as Escrituras, expõem as preferências pessoais; reeditam uma Escritura de cunho conservador, liberal, ou modernista.

Em outros casos constatamos símbolos da fé transformados em peças decorativas, pois a rotina retirou o significado exato da existência dos mesmos. White denuncia que se estes símbolos forem usados como peças decorativas "passam a ser banalidades que não valem o esforço ou tempo que consumiram"[3].

Grande prejuízo na Vida Litúrgica da Igreja pode ser causado quando se usa indevidamente a constância sem a variabilidade.

Outrossim, a constância e variabilidade precisam ser um amálgama[4]. Aí sim, amalgamadas, darão um sabor irresistível ao Culto Cristão.

A constância tem efeitos sólidos no Culto Cristão. Ninguém pode negar este fato. Contra fatos não há argumentos, preconiza a sabedoria popular.

Nos dias atuais, apesar de haver o alimento litúrgico sólido e satisfatório (constância), a Igreja possui uma fome litúrgica. Ela procura algo que a sacie. Como a rotina da "constância" não tem exercido atratividade sobre ela, a mesma procura nos fast foods da vida saciar a esta fome.

Tendo em mãos, o essencial que é o alimento satisfatório e usando a variabilidade para temperá-lo, teremos eficazmente conduzido a Igreja na caminhada litúrgica correta diante da fome que ostenta: fome (litúrgica) zero.

Há uma necessidade de se utilizar a constância e a variabilidade juntamente.

A contextualização na Leitura da Palavra[5] do Antigo Testamento e do Novo Testamento dará uma visibilidade doutrinária notável à comunidade.

A entronização de temas de música[6] com a pregação dará uma sintonia de assunto perpassante ao programa litúrgico. É maravilhoso contemplar cada pessoa que participa da liturgia sendo usada pelo Espírito Santo através de dons, ministérios e operações especificas, mas todas elas dentro do bojo daquilo que é útil (para Deus, para a edificação do Corpo, para a salvação dos pecadores perdidos, etc.). Esta sintonia, eu a chamo de linha mestra litúrgica[7].

A preparação devida do sermão[8] em sintonia com as leituras bíblicas possibilita um conduzir ordenado da comunidade numa só direção. Esta preparação é mais trabalhosa para o pregador[9], entretanto, melhora consideravelmente, o conteúdo do sermão, a formação do pregador, o uso homilético, etc.

Dimensões relevantes são acrescentadas ao Culto Cristão quando se utiliza as cores[10], objetos comunicativos[11], recursos gráficos[12] e proclamações visuais[13]. Toda esta variabilidade tonifica a constância do Culto Cristão; oferece ao mesmo uma vitalidade mais eficiente e eficaz. Esta vitalidade impacta muito mais ao cristão. Chega mais perto de sua alma. Mexe com as suas emoções. Oferece um feedback à sua mente: algo vivo está em funcionamento. Este feedback cria a atmosfera adequada para, sem impedimento algum, a fé possa misturar-se às palavras eternas e o cristão receber, em sua vida, a operação do sagrado.

A variabilidade não deve em hipótese alguma anular a constância, pois quando isto ocorre esvazia o Culto Cristão do seu significado crucial. Com facilidade encontramos nas comunidades a realização de cultos esvaziados de seu significado principal. E, por incrível, que pareça isto tem avançado sem sofrer uma reflexão apropriada. Parece-me que os longos anos em que a Igreja passou mergulhada de "forma mórbida na constância", impulsionou extravasadoramente as pessoas a buscarem de "forma mórbida a variabilidade". É no ponto oito ou no oitenta! São posturas extremadas! Todo extremo é perigosíssimo, pois é borda de precipício! O nosso Deus é Deus de Equilíbrio![14]. O Equilíbrio é uma constante na Sua Variabilidade!

Os cristãos estão vivos, e como vivos, devem oferecer uma adoração viva ao Deus vivo. Não devem sacralizar uma rotina em nome de uma constância, pois na verdade isto não será uma constância, na verdade será um processo mortificador daquilo que é vida. A constância no Culto Cristão não significa isenção e/ou mutilação da variabilidade, pelo contrário, usar a variabilidade é uma maneira da constância ser visível através da constante criatividade divina. Aí reside um aspecto da grandeza divina, Ele consegue ser constante na variabilidade e usar a variabilidade com constância. A variabilidade não anula a constância da essência divina, mas a sua constância também não está anulada pela variabilidade. Nem a Sua variabilidade sofre a interferência de Sua Constância. A constância divina é constantemente enriquecida (aos nossos olhos humanos) por Sua variabilidade e vice-versa.

Assim deve a igreja proceder no Culto Cristão: com constância e variabilidade amalgamadas.

[1] James F. White. Introdução ao Culto Cristão: p.24.

[2] White: p.61.

[3] White: p.65.

[4] Amálgama: Mistura de elementos que, embora diversos, contribuem para formar um todo.

[5] White: p.62.

[6] White: p.63.

[7] Linha Mestra Litúrgica é a linha que o Espírito Santo utiliza para coser toda a programação do culto; Ele une ponto por ponto de cada parte litúrgica e forma o todo da mensagem divina. É a espinha dorsal do culto.

[8] White: p.63.

[9] White: p.63: Afirma que esta preparação para produzir um sermão que vai ser pregado uma única vez é muito trabalhosa.

[10] White: p.64.

[11] White: p.65.

[12] White: p.65.

[13] White: p.64.

[14] Deus, o Pai, perdoa o pecador de seus pecados, mas Cristo, Seu Filho, teve de pagar por estes pecados.

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