A Liturgia Batismal Na Vigília Pascal

28/06/2008 • Por • 6,786 Acessos

Introdução

A Liturgia Batismal assume um foco importantíssimo no seio da Igreja, pois a mesma revela feitos divinos grandiosos. Estes feitos de Deus, no rito batismal, são colocados sob os holofotes de uma grande nuvem de testemunhas - a comunidade, os anjos e o mundo. Entre outros tantos feitos divinos realizados em prol daquele que se batiza, destacamos: 1)Encarnação; 2) Redenção e 3)Busca Amorosa do Salvador. Estes grandiosos feitos divinos indicam, precisamente, que este rito tão significativo não deve ser celebrado de qualquer maneira, ainda que não possa expressar em si mesmo, toda a dimensão desejável acerca de toda a magnitude divina em Seus atos redentores. Apesar das limitações que possam permeiar o rito, deve haver uma preocupação bíblico-teológica, histórica e antropológica quanto ao seu conteúdo e a sua caracterização como agente transmissor das verdades divinas, sem todavia esquecer-se da ritualidade. A ritualidade "está aberta ao sentido sempre novo que vem da realidade, como atualização do sentido fundante de nossa fé. É construtora de pontes: faz a ligação entre o 'barro' e o 'sopro', entre o consciente e o inconsciente, entre o tempo e a eternidade, entre o humano e o divino, entre passado, presente e futuro"[1]. A ritualidade construirá a ponte entre o "barro" e "sopro[2]", despertando naqueles que participam dos ritos , os gestos corporais, o sentido teológico-litúrgico e a atitude espiritual.
Imersos nesta ritualidade, discorreremos sobre um "recorte[3]" da Liturgia Batismal na Vígilia Pascal, constituído de três partes: 1) Ação de Graças; 2) Renovação das Promessas Batismais e 3) Aspersão com Água.
Para nos situarmos mais precisamente neste recorte, lembramos que a Vígilia Pascal "é o ponto alto do Tríduo Pascal[4]". A Vigília Pascal acontece em sua primeira parte fora da Igreja, ao redor de uma fogueira acesa com fogo novo. Acende-se com o fogo tirado da fogueira ao círio pascal. Depois segue-se uma procissão da comunidade em que as pessoas com suas respectivas velas acesas no círio pascal adentram na Igreja. No recinto da Igreja acontece a liturgia da palavra, a liturgia batismal e depois a liturgia da eucaristia. A Vigília Pascal encerra-se com a liturgia de despedida[5].

1. Ação de Graças

Após a liturgia da palavra, convida-se a comunidade para cantar um hino. Enquanto isso, o círio pascal, com o seu candelabro, é levado à Fonte Batismal. Ao redor da Fonte Batismal a Ação de Graças deverá ser proclamada pelo celebrante junto à comunidade com a entonação e o volume de voz, a postura gestual, a atitude de gratidão e sentimentos de amor/alegria com a devida adequação ao rito, tendo o cuidado para não engessar a si mesmo, ao rito e/ou a comunidade.
Será feita pelo celebrante a Oração Sobre as Águas trazendo à memória da Igreja os feitos divinos. Mencionados os feitos divinos em etapas distintas da oração, a comunidade bendirá ao Senhor por tais feitos ao fim de cada etapa da Ação de Graças.
Nesta Oração Sobre as Águas o Senhor dá Ação de Graças porque no princípio do mundo, Seu Espírito se movia sobre as águas. Criou o céu e a terra e povoou as águas e o chão firme com Suas criaturas e com a dádiva da água nutre e sustenta a todos os seres. Então a comunidade bendirá ao Senhor. Logo após, o celebrante continua agradecendo ao Senhor pelas águas do dilúvio, através das quais Deus condenou os maus e salvou aos que tinha escolhido, Noé e sua família. Numa outra etapa é lembrada a travessia do Mar Vermelho, quando Deus salvou ao Seu povo e afogou aos opressores do mesmo. Em nova etapa, são lembradas as águas do Jordão, nas quais o Seu Filho Unigênito fora batizado e ungido pelo Espírito Santo. Em outra fase, o celebrante lembra que nas águas do batismo, todos nós somos mergulhados e passamos da morte para a vida. Nestas águas somos purificados e renascemos para a vida eterna. Obedientes à ordem do Senhor proclamamos o Seu Evangelho a toda criatura no mundo inteiro, fazendo delas discípulas do Senhor e batizando-as em Nome do pai, do Filho e do Espírito Santo.
Na Eplicese pode fazer descer o Círio Pascal na Fonte Batismal e proclamar a ação d'Ele sobre aquelas águas, fazendo como na Criação o surgimento da vida.
Esta Ação de Graças pode conter expressão de louvor cantada ou falada pela comunidade, como resposta à proclamação realizada pelo celebrante. Todavia, se faz mister que todos os participantes estejam envolvidos com a ritualidade proporcionada por eles mesmos que com inteireza do ser realizam o rito e , com a própria ritualidade que este rito gera; devendo haver uma unificação deste começo e fim (da ritualidade encerrada em si mesma neste rito).
Vários elementos podem enriquecer este rito, se incorporados devidamente. Elementos acústicos, olfativos, visuais, sensoriais, etc., podem dimensionar com muita amplitude este rito. O barulho do jôrro da água, da pia batismal recebendo a água, cheiro de frescor da natureza, cheiro de flores, brisa, incidência da luz, etc. Os aspectos visuais na utilização da água devem ser bem trabalhados. Cada detalhe das partes somam-se e conseguem um todo maior do que a soma das partes. Até mesmo as vestes alvejadas ou de cores vivas do celebrante podem repercutir positiva ou negativamente. Cada momento deve ser pensado, considerando-se o momento todo. Em toda a esfera do ambiente da celebração deve haver uma preocupação para que não haja alguma situação de desconforto atrapalhando o rito.


2. Renovação das Promessas Batismais

Na renovação das promessas batismais deve-se situar a comunidade para o fato de que há um só batismo e que cada pessoa batiza-se apenas uma única vez. Mas, que podemos trazer à memória e ao nosso presente a renovação das promessas batismais. Este ato remete-nos ao momento de nosso batismo trazendo à lembrança a nossa experiência com o Senhor, fortalecendo-nos no nosso presente, uma vez que nos fala de um futuro que aguardamos.
É imprescindível que o rito, através de sua ritualidade, integre as pessoas que o realizam. Estas pessoas deverão saber, agir e sentir a renovação das promessas batismais.
O celebrante convida à comunidade a renovar as promessas batismais. São convidados a prometerem lutar contra as forças do mal, contra a escravidão do pecado e toda a forma de opressão, a fim de viverem a liberdade dos filhos e das filhas de Deus. A lutar contra o egoísmo, a avareza, a injustiça e a exploração. Depois de partes que compõem uma postura de renúncia ao mal, a comunidade é conduzida a confessar a fé que a move. Entre uma inquirição e outra do celebrante, a comunidade responde: Prometemos! Esta renúncia é realizada porque diariamente se trava a luta entre a nossa velha natureza e a natureza de filhos e filhas de Deus![6]

3. Aspersão com Água

O celebrante deverá ter o cuidado para não fazer uso do verbalismo e esvaziar o rito do seu próprio significado. O rito deve gerar ritualidade em si através das pessoas inteiras que dele participam. A comunicação não-verbal deve fluir, pois ela enriquece o conteúdo da fé. Nem tudo cabe nas "palavras", Deus usa a comunicação não-verbal. Sair de uma linguagem verbal, não é ficar mudo, mas pode significar, às vezes, a busca de uma linguagem total através da comunicação não-verbal. Muitas vezes as palavras não conseguem atingir as pessoas, são palavras que não falam à alma, no máximo conseguem alcançar os ouvidos das pessoas. Entretanto, a comunicação não-verbal consegue atingir o coração das pessoas...é uma linguagem que vai direto à alma. Emociona, mexe e remexe por dentro das pessoas, quebranta corações endurecidos, move pessoas na direção certa. Os sinais sensíveis conseguem penetrar em recônditos da alma que a comunicação verbal não consegue, realizando aquilo que significam. Por isto, não podemos reduzir um rito às palavras. Quando o celebrante, fazendo uso da água, aspergir sobre a comunidade, evocará em suas lembranças o derramar das águas criadoras , símbolo do Espírito Santo sendo derramado sobre a vida delas para recriá-las numa dimensão completa diante de Deus. A água tocando no corpo da pessoa a despertará para repensar no toque de Deus em sua vida e este Deus que é o mesmo Ontem, Hoje e Eternamente poderá tocar em sua vida no momento presente.

Conclusão

Atos grandiosos de Deus para serem apresentados no mundo devem possuir ritualidade. Só há ritualidade nos ritos, quando as pessoas agem com a inteireza do ser. Sem ritualidade, os ritos serão cerimônias vazias do sentido maior!
A Liturgia Batismal ao celebrar a renovação dos votos batismais realiza a anamnese da nossa inserção no Corpo de Cristo. A cada participação nesta liturgia somos levados a nos exercitarmos em nossa fé diante do Cristo, pois toda a vida cristã está sustentada em Cristo, por Ele e para Ele. Portanto, devemos cuidar com esmero para que cada ato de nossa parte na referida liturgia manifeste a a glória do Ressuscitado e, a sua ação pascalizante, seja sobre todos aqueles que
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[1]Ione BUYST, "Barro e Brisa, Convite à Experiência Religiosa Ritual, p. 240.
[2]Definição que Ione Buyst utiliza para descrever a parte material e a imaterial do ser humano no texto "Barro e Brisa, Convite à Experiência Religiosa Ritual, p. 235.
[3]O recorte é uma pequena parte de um único rito ou pequena seqüência de rito a serem trabalhados no Laboratório Litúrgico (uma técnica a serviço da formação litúrgica).cf. Ione Buyst. Símbolos na Liturgia. Paulinas.1998.
[4]Sissi GEORG, Tríduo Pascal, p.70.
[5]Sissi GEORG, Tríduo Pascal, p.71.
[6]Sissi GEORG, Tríduo Pascal, p.91.

Perfil do Autor

Alberto Matos

Doutor em Educação (EUA) e em Divindade (England), Mestre em Liturgia (Brasil), Mestre em Teologia (England), Especialista em Administração...