Atos Dos Apóstolos: Primeiras Comunidade

22/01/2009 • Por • 20,032 Acessos

ATOS DOS APÓSTOLOS: Primeiras Comunidade


A Igreja e os cristãos de hoje se acostumaram a idealizar a primeira comunidade cristã, a partir da afirmação de Atos 2,42-47 e de 4,32-37. Esses, como outros conjuntos de textos são chamados de sumários, pois são uma espécie de síntese do pensamento do autor do texto. Mas antes de analisarmos os sumários, vamos analisar esse “retrato” das comunidades, aparentemente perfeitas


Para entendermos as primeiras comunidades precisamos ler estes dois textos em sintonia com 5,1-11. Somente assim perceberemos a realidade das comunidades: santa, pela utopia da vida solidária, mas pecadora porque o ideal cristão é um caminho a ser trilhado e não um ponto de chegada; uma situação em que as comunidades já houvessem chegado. Permanecia o ideal igualitário ao lado da realidade conflitiva. O trecho de 5,1-11 deve ser lido, portanto em oposição a 4,36-37. dessa forma ambos os textos se explicam e explicam como era a realidade da comunidade.


Além disso o episódio simbólico de Ananias e Safira deve ser lido simultaneamente com 2Sm 6,1-11 e 1Cro 13,1-14. esses textos do Antigo Testamento também mostram que aqueles que não foram capazes de conviver, honestamente, com a comunidade também foram punidos com a morte.


Notemos, ainda que o pecado não é a retenção de parte da venda, mas a mentira que é associada ao “príncipe da mentira”: Satanás, o mesmo que induziu Judas à traição. Não é a retenção de parte do resultado da venda porque a adesão à comunidade e a partilha são opções livres. Da mesma forma que as pessoas eram livres para aderir à comunidade eram livres para entregar a ela seus bens ou parte deles.


Em função disso vale a pena resgatar o outro nome de Satanás: Diabo que significa divisão. O “pecado” da mentira provoca a ação diabólica: a divisão. Da mesma forma que a comunidade dos apóstolos fora dividida com a atitude de Judas, a dos primeiros cristãos fica cindida com a mentida do casal.


O dado histórico que levou algumas das primeiras comunidades a se preocuparem em ter tudo em comum, em se desfazer dos bens foi uma compreensão equivocada a respeito do Breve retorno de Jesus. Pensava-se que seria muito em breve e que, portanto, todos deveriam desfazer-se de tudo que pudesse criar embaraço. Daí o desfazer-se dos bens. Inclusive Paulo precisou ser mais enérgico com algumas comunidades que estavam se acomodando nessa expectativa, deixando de trabalhar para viver às custas da comunidade (ver carta aos Tessalonicenses, 1 Ts 2,9-10; 2 TS 3,6-12). Contrapondo-se a isso é que Paulo sempre fazia questão de viver às custas de seu trabalho, “para não ser pesado a ninguém” como ele afirma em suas cartas.


Como a expectativa da parusia não se cumpriu, buscou-se outra alternativa: a de organizar comunidades com a supervisão de missionários para o anuncio e divulgação da palavra e dos diáconos para o serviço, conforme se lê em At 6,1-6. A igreja começava a se institucionalizar e a ganhar os reais contornos de universalização como pré-anunciada no discurso inicial de Pedro sucedendo ao que propuseram os anjos, dirigindo-se aos “homens da Galiléia” At. 1,11 (estrangeiros em Jerusalém); At 2,14; 2,22; 3,12.


A grande lição, das “primeiras comunidades” ou do “socialismo” dos primeiros cristãos, não é o ponto de chegada, mas o objetivo: não somos assim, mas é assim que queremos ser.


Neri de Paula Carneiro – Mestre em Educação, Filósofo, Teólogo, Historiador.


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Perfil do Autor

NERI P. CARNEIRO

Concluí mestrado em Educação (UFMS), especialização em Educação (UNESC-Cacoal-RO), especialização em Metodologia do Ensino Superior (UNIR-RO), especialização em Metodologia de Leitura Popular da Bíblia (CEBI-RS). Concluí os cursos de graduação em Filosofia, Teologia, História. Sou Professor de História e Filosofia pela rede pública estadual (R. Moura-RO); professor de Filosofia na Faculdade de Pimenta Bueno - FAP (Pimenta Bueno-RO). Radialista e colaborador em jornais da região de Rolim de Moura – RO. Publiquei alguns livros de circulação regional além de artigos em revistas científicas de Rondônia. Meus textos são publicados regularmente no jornal Folha da Mata (Rolim de Moura-RO) nos blogs: http://falaescrita.blogspot.com e http://ideiasefatos.spaces.live.com e no site www.webartigos.com aceito convites para palestras e cursos na área de filosofia e educação. AO LEITOR: SE GOSTOU DE ALGUM TEXTO, INDIQUE AOS AMIGOS. BOM PROVEITO.