Filosofia Da Religião

01/10/2009 • Por • 6,856 Acessos

Filosofia da Religião é a matéria que se dedica à investigação racional da relação que o homem procura manter com o supranatural e que se denomina por religião. Por definição, filosofia é o amor que se devota à sabedoria, ou seja, um apreço pela compreensão mais pura das coisas. Acontece que o mundo humano está imbricado com muita coisa desconhecida e o nível de ignorância é muito maior que o do conhecimento. O mito (que é uma explicação folclórica dos fenômenos inexplicáveis) ocupa muito do imaginário das pessoas, assim como o senso comum (que é a opinião da maioria sobre um assunto). Quando as verdades que nos ensinam não passam de rasteiros pontos de vista e preconceitos infantis nosso mundo fica estreito e raso. Somente quando nos damos conta de existe um universo lá fora, bem maior que nosso quintal existencial é que passamos a investigar as coisas e a buscarmos melhores explicações para elas. É assim que nasce a filosofia, o amor ao saber.

Dentre todas as investigações que os filósofos fazem, não poderia ficar de fora a religião, que por definição significa o serviço que o homem presta á divindade com o fim de reatar os laços que foram quebrados entre eles. Na religião o devoto, o fiel ou o sacerdote está sempre em dívida com a divindade, por que na relação entre ambos o homem ofendeu o deus e provocou sua ira e conseqüente castigo. Para apaziguar o ofendido, o sacerdote faz oferendas que vão desde a simples reza (palavras secretas que só o deus entende) até o sacrifício de vítimas (animais ou pessoas). Para o filósofo, as explicações que os religiosos oferecem para tais rituais e sacrifícios pertencem à categoria do mito, e não passam de emblemas humanos para resolver os conflitos existenciais dos homens que não querem buscar numa compreensão mais racional das coisas.

Segue-se que a religião (para a filosofia), é somente uma forma mais simplista de enxergar a vida e a morte, tendo o mundo com suas complicações no meio. A defesa por excelência que os filósofos fazem da razão não é contrária à religião, mas é um grito agudo que chama o homem para destruir os ídolos e os andores e elevar a compreensão religiosa a um nível mais espiritual e metafísico. Um exemplo desta defesa filosófica está em Sócrates (469-399 a.C.), que foi acusado de ateísmo por seus compatriotas devido sua crítica aos atenienses que praticavam a religião mas não entendiam sequer o significado dos sacrifícios e rituais. De fato, Sócrates não era ateu, pois como ele mesmo afirmava “ele seguia sua vocação filosófica por causa de um oráculo que recebera no templo de Delfos”.

Outro exemplo de filósofo que defendia uma compreensão mais pura das verdades religiosas chamava-se Platão (428-347 a.C.) Ele mesmo era um místico, muito devotado à religiosidade grega, mas ao mesmo tempo muito distante dela. Para Platão existiriam dois mundos, sendo este terreno um mundo de sombras ou réplicas do original. O mundo original seria o verdadeiro, onde as coisas existem na forma ideal e única. Assim, no mundo das idéias existiria o verdadeiro Homem, o verdadeiro Cavalo, o verdadeiro Bem, a verdadeira Justiça e assim por diante. Neste mundo em que vivemos estaríamos tão somente reproduzindo em escala menor o que se passaria na dimensão do mundo original.

Por fim surgiu um terceiro filósofo chamado Aristóteles (384-322 a.C) que deu prosseguimento à filosofia de Platão e chegou por fim à compreensão de que não seria possível a existência de muitos deuses, a não ser que houvesse um primeiro deus, anterior a tudo e a todos e que teria dado origem a tudo e a tudo depois dele. Seria o primeiro motor. Ainda não é a fé na existência de um único Deus, mas sim, a percepção de que seria necessário a existência de um primeiro momento que sobrepujasse a coexistência de outros momentos. Enquanto esse primeiro motor existisse, tudo continuaria acontecendo. Caso ele fosse extinto, tudo desapareceria com ele. Daí Aristóteles chegou à compreensão de que o mundo é tão eterno quanto esse primeiro deus.

Contudo, não foi somente na Grécia que os pensadores passaram a investigar o fenômeno religioso e sua forma bruta de ser praticada. Também na Índia, no Japão, na Pérsia, na China, no Egito e na Palestina se levantaram pensadores da religião, sendo alguns chamados de brâmanes, outros de iluminados, outros de sacerdotes, outros de mestres e outros de profetas. Cada um dentro de sua própria tradição religiosa: Hinduísmo, Masdeímo, Taoísmo, Zooteísmo e Javismo. Eles alegavam que a religião estava em demérito na sociedade tanto por culpa das castas sacerdotais quanto por corrupção do Estado, além da ignorância do povo. Era preciso reformar a religião dando-lhe uma função mais humana e social, socorrendo os necessitados e fazendo justiça aos injustiçados.

Esta vanguarda reformista imprimiu à religião um vigor que lhe faltava em tempos passados, por que doravante ela iria servir não somente como satisfação ao deus ofendido como também de tribunal dos homens injustiçados. Todo aprofundamento racional que os reformadores (sábios) prestaram à religião aproximou o deus de seus adoradores. Os fiéis voltaram aos templos e os sacerdotes além de falar aos deuses também transmitiam mensagens deles aos devotos. Os rituais se tornaram mais compreensíveis e acessíveis a quem quisesse. As principais contribuições dos sábios para a religião foram as escolas cuja linha pedagógica tinha por fim fazer dos alunos os novos transmissores da religião. Embora seja interessante investigarmos essas escolas em outras culturas, vamos nos prender um pouco mais na versão judaica: a sinagoga!

Os judeus vinham dentro de uma tradição religiosa bastante antiga (desde os tempos do patriarca Abraão - 1950 a.C.). Este patriarca abandonara a terra dos caldeus na Mesopotâmia onde se adoravam milhares de deuses para dedicar-se ao culto de um só deus a quem chamava de Eloim (o Deus dos deuses). Daí para frente, seus descendentes mantiveram-se dentro desta tradição a que chamamos de henoteímo, crença em um único deus. (No henoteísmo não se nega que existam outros deuses, tão somente não se presta culto a nenhum deles). Essa tradição henoteísta esteve entre os descendentes de Abraão até os dias de Moisés (1500 a.C), o primeiro reformador do culto judaico. Ele escreveu cinco livros conhecidos como torá onde estão os ensinamentos do deus de Abraão, Isaque e Jacó. O nome desse deus é Javé (ou Jeová) e não era um deus entre outros, mas o único deus, portanto, os judeus não deviam mais continuarem no henoteísmo mas converterem-se ao monoteímo. À partir de Moisés o nome de deus não mais seria “tomado em vão” e deveria der tratado com toda a reverência.


Passaram-se mil anos desde Moisés até Ezequiel. Embora muitos profetas houvessem se levantado para defender o monoteísmo entre os judeus, nem os sacerdotes, nem os governantes e nem o povo abandonou a forma antiga da religião. Os filhos de Abraão ainda continuavam crendo na existência de muitos deuses, e os adoravam em conformidade de seus interesses. Devido às mudanças políticas na região dos judeus, muitas guerras aconteceram e os sobreviventes foram deportados para a Babilônia. Foi então que se levantou Ezequiel (622-573 a.C.) e deu início à segunda reforma na religião de Abraão. Reunindo-se regularmente com os anciãos para momentos de orações e meditações Ezequiel passava por momentos de êxtase e tinha visões. Devido sua aplicação à religião o profeta ajuntou em torno de si alguns seguidores do monoteísmo e após algum tempo organizou o judaísmo.

Dentro do judaísmo o prestígio que se devia aos sacerdotes flutuou para os chefes de sinagogas, os líderes dos judeus que liam os oráculos e possuíam compreensão mais profunda da religião. Esses organizavam a vida religiosa do povo e ensinavam aos filhos deles sobre as doutrinas dos profetas. Todo o ciclo de doutrinas girava em torno da rebelião que as criaturas mantinham em relação ao Criador e a conseqüente prática da religião para alcançar a misericórdia de Javé. Consistia essa religião em obedecer aos mandamentos de Deus e guardar as tradições dos anciãos. Com o passar dos anos, o judaísmo tornou-se um sistema religioso complicado de se compreender e pesado para se praticar.

Voltando ao aspecto filosófico da religião, agora com um subsídio histórico a mais para a compreensão, podemos perceber que a religiosidade humana se manifesta muito de acordo com sua compreensão teológica, ou seja, aquilo que lhe foi transmitido como verdade sobre Deus. Em geral, ensina-se que Deus está contrariado com os homens (ofendido é melhor) e por esta razão, desaba sua ira em forma de castigos que causam dor e sofrimento aos impenitentes. Quando arrependidos (ou amedrontados), os pecadores buscam o perdão (ou favor) de Deus oferecendo-lhe dádivas (rezas, rituais e sacrifícios). Fazem votos (promessas) e se tornam devotos (escravos) dele. Agora que alcançaram seu favor, passam a ensinar sua religião aos outros para que também se convertam.

A grande contrariedade da religião está no fatalismo, ou seja, as coisas ruins que acontecem irremediavelmente. Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? Por que Deus pune o justo como se fosse um injusto? Que mais deve ser feito para se aplacar a indignação de um Deus vingativo? Novamente surgem os sábios (profetas) e reformam a religião, dando novas fórmulas teológicas para auxiliar os homens na sua compreensão sobre Deus. Eles revelam que o mal não é obra de Deus, e sim de seus adversários, os demônios. Esses demônios são chefiados por um anjo caído chamado Lúcifer e estão em constante rebelião contra Deus e seus filhos. Está armada uma guerra cósmica onde Deus e Lúcifer combatem na conquista das almas humanas. Nesta forma dualista de entender as coisas, o homem deverá escolher a quem seguir, sabendo que será recompensado de acordo com suas decisões. Deus dará vida eterna aos bons e punirá com o inferno a Satanás e seus aliados.

Embora todo o poder esteja nas mãos de Deus, seu adversário covardemente seduz a humanidade com propostas terrenas suficientemente eloqüentes para enganá-los. Ainda que o Bem seja preferível ao mal, a grande maioria dos homens é presa fácil da maldade demoníaca. Mesmo na prática da religião, os devotos continuam “dando lugar ao diabo” e aumentando o prestígio do reino das trevas. A religião se presta ao luxo dos sacerdotes e explora a credulidade dos devotos. Esses ficam convencidos de estarem agradando a Deus e se divorciam da vida real, sonhando com o Reino dos céus e entregando este mundo aos filhos das trevas. Política, Ciência, Tecnologia, Comércio, Educação e Cultura ficam aos cuidados dos ímpios enquanto os piedosos oram e cultuam a Deus...

É necessário um despertar da religião cristã no mundo, e não se trata de uma reforma simplória. Trata-se de despertarmos de um sono dogmático surrealista para uma realidade abrangente que inclua Deus não somente na vida e na morte dos indivíduos, como também dos povos e nações. Retiramos a religião da escala privada e a tornarmos matéria de Estado. Gritarmos a plenos pulmões que “temos algo a dizer sobre Política, Ciência, Tecnologia, Comércio, Educação e Cultura”. Temos uma proposta existencial que se inspira na Cruz de nosso Senhor e que faz sombra a qualquer ideologia terrena. Estamos prontos para o diálogo com qualquer religioso, político, cientista, comerciante ou educador do mundo. Também fazemos parte da raça humana e também vivemos na sociedade dos homens. Que se nos dêem ouvidos e se faça valer nossa filosofia.

Rogério de Sousa
10 de junho de 2009

Perfil do Autor

Rogério de Sousa

Sou um auto-didata. Não sginifica que não tenha formação e diplomas. Somente não consigo permanecer dentro dos currículos e metodologias...