O futuro das religiões

24/09/2013 • Por • 34 Acessos

fe.jpgHá um processo em desenvolvimento, uma nítida adaptação religiosa, secular. Vivenciamos um período em que tudo passa rapidamente, como a tecnologia e a própria religião. Nada é exatamente estático, intocável, imutável. Os recentes pronunciamentos do papa Francisco, em que dá sinais de uma possível mudança ou inclinação à Pós-modernidade, por parte da Igreja Católica é um claro sinal de que as religiões passam por um processo de mutação, de conformação com a sociedade. O Estado pontifício não mais detém o mesmo poder do período medieval, ou mesmo da Idade Moderna, a exemplo do que ocorre em um pequeno país, chamado Uruguai.

Mas o que há de especial em um país cuja população é quase quatro vezes menor do que a do município de São Paulo? A resposta está no fato de que a República Oriental do Uruguai possui uma das políticas mais liberais do Continente Americano. Apesar de contar com 47% de católicos a Republica do presidente e ex-guerrilheiro Mujica, possui um histórico de processos liberais, como a aprovação do divórcio (1907), o voto feminino (1927), o aborto com até 12 semanas de gestação (2012), o casamento homoafetivo e a legalização do uso da maconha (2013). A eutanásia também é uma pauta a ser discutida.

Não obstante a presença de diversas religiões no País, o laicismo é um tema levado a sério. Há restrições ao ensino religioso (foi regulamentado há mais de um século); são proibidos símbolos religiosos em hospitais e demais repartições públicas; não há capelães nas Forças Armadas; o casamento religioso não é reconhecido pelo Estado; não há feriados religiosos e o Dia de Reis é chamado de Dia das Crianças e o Natal é conhecido como o Dia da Família. Apesar de reconhecidamente laicos, os Estados Unidos e o Brasil ainda possuem resquícios da influência religiosa, como a presença de crucifixos em tribunais, câmaras e assembleias legislativas. Há de se acrescentar o fato de que as discussões políticas também são influenciadas pela religião.

O Uruguai é, portanto, um exemplo de pais cuja política supervaloriza o secular, o laico, em detrimento ao religioso. Não é a fé propriamente o foco do governo, mas a laicidade do Estado, das instituições públicas. A religião, por outro lado, tende a ceder às tendências sociais, como o verificado em algumas igrejas protestantes históricas (nos Estados Unidos e na Europa ocidental), como na Igreja Metodista, Presbiteriana, Anglicana. No Brasil, a ordenação das duas primeiras evangelistas pela Assembleia de Deus Madureira também é um indício de que mesmo as correntes mais conservadoras, pentecostais, são susceptíveis à dinâmica mundial, motivada por políticas de inclusão da mulher. São casos diferentes, mas que refletem uma tendência mundial.

Aos poucos as religiões irão se adaptar à sociedade, seja por força do Estado, por estatísticas sociais, ou mesmo por reinterpretações de sua doutrina ou filosofia. A Igreja Católica é um exemplo de que deverá, de fato, ceder as políticas internacionais relacionadas à legalização do aborto, do casamento ou união homoafetiva. Mesmo às religiões mais fechadas, dogmáticas, passam por um processo de adaptação, de mudança. O desmantelamento das repúblicas islâmicas, a aproximação de algumas com os EUA, a ocidentalização do Oriente e mesmo as divergências doutrinárias características das correntes islâmicas, seguem uma tendência universal de mudança, que resultará em readaptação e em uma maior abertura ao Ocidente. No extremo oriente, a Coreia do Sul e o Japão são exemplos de ocidentalização, nos costumes e na religião.

 

Perfil do Autor

Johnny Bernardo

  é pesquisador, jornalista, escritor, colaborador do NAPEC (Núcleo Apologético de Pesquisa e Ensino Cristão), dos jornais The Christian Post e Gnotícias e licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo. Há mais de dez anos dedica-se ao estudo de religiões e crenças, sendo um dos campos de atuação a religiosidade brasileira e movimentos destrutivos. Contato: pesquisasreligiosas@gmail.com