Resiliência E Abordagem À Saúde De Crianças E Adolescentes

Publicado em: 14/03/2010 |Comentário: 0 | Acessos: 1,397 |

RESILIÊNCIA E ABORDAGEM À SAÚDE DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Introdução

 

A capacidade inerente ao ser humano de enfrentar as adversidades da vida é denominada resiliência, termo que vem do latim resilio e significa "dar um salto, ser impelido". O conceito foi inicialmente utilizado nos setores da Física e Engenharia para indicar a capacidade do metal resistir a golpes, mantendo ou recuperando a estrutura interna. (DAGMAR, ESTERMANN, MELLO, VALADÃO, AYRES, 2006; YUNES, 2006). A partir da década de 80, o termo passou a ter uso na Sociologia e Psicologia, para depois chegar à Saúde. (KOTLIARENKO, CÁRCERES, FONTECILLA, 2009; YUNES, 2006).

No Brasil, os estudos sobre resiliência contam com pouco mais de dez anos e muitos profissionais ainda desconhecem o tema e sua aplicabilidade nos cuidados de populações vulneráveis, por exemplo, famílias de baixa renda, pessoas que sofreram perdas importantes ou com dependência química, ou ainda em situação de rua, etc. (KOTLIARENKO, CÁRCERES, FONTECILLA, 2009; POLETTO, KOLLER, YUNES, 2006; PESCE, ASSIS, SANTOS, 2004).

Na visão contemporânea, que inclui aspectos sociais, psicológicos, antropológicos, neurobiológicos, psicanalíticos e médicos, resiliência é um processo dinâmico com variação individual, e reflete a adaptação positiva (de sucesso) diante de situações adversas, sendo que os mesmos fatores de estresse podem ser vivenciados de várias formas por diferentes pessoas. (CICCHETTI, 2003; KOTLIARENKO, CÁRCERES, FONTECILLA, 2009).

Nessa perspectiva, duas conclusões são fundamentais: a resiliência é um processo e não um atributo inato ou estável e, portanto, se as circunstâncias mudam, a resiliência também pode se modificar.  A segunda conclusão é que se trata de um fenômeno de toda a espécie humana e não apenas de casos especiais. (MASTEN, 2001; LUTHAR, ZELASCO, 2003).

 

Fatores relacionados à resiliência

 

A natureza dinâmica da resiliência remete a quatro outros conceitos que interagem de forma constante, antes mesmo do nascimento (CICCHETTI, 2003):          

1. Fatores de risco ou adversidade 2. Fatores protetores 3. Vulnerabilidade            4. Competência individual ou grupal.

1. Fatores de risco ou adversidade – trata-se de qualquer característica, individual ou da comunidade, que eleva a probabilidade de um efeito indesejável na saúde.  Uma situação de risco, em geral, constitui-se por fatores vários que têm influência mútua e dinâmica. (DAGMAR, ESTERMANN, MELLO, VALADÃO, AYRES, 2006; YUNES, 2006).

São fatores individuais de risco: o sexo, síndromes genéticas, carência de habilidades relacionais ou intelectuais que limitam a competência social, resistência às figuras de autoridade, atitudes antissociais, consumo de drogas. (CICCHETTI, 2003; AYRES, 2006; KOLLER, LISBO, 2007; KLOTIARENKO et al., 2009).

Os fatores adversos ambientais caracterizam-se por laços familiares desagregados, dificuldades da comunicação afetiva; desemprego, alcoolismo ou violência parental;  pobreza, ausência da rede de apoio social, local de habitação com elevado índice de violência ou uso pessoal de drogas, perda de entes queridos. (KLOTIARENKO et al., 2009; MASTEN, 2001; MANGRULKAR, WHITMAN, POSNER, 2001; CICCHETTI, 2003; AYRES, 2006; KOLLER, LISBO, 2007).

Embora a pobreza cause diversas lacunas que podem servir de gatilho para outros fatores adversos, como alcoolismo e uso de drogas ilícitas pelos pais, negligência, abandono, outros tipos de violência e criminalidade, é preciso cuidado com generalizações. Muitas famílias pobres, até as monoparentais, podem funcionar com sistema moral bastante fortalecido, em que a alteridade e solidariedade diluem os riscos da pobreza. (CECCONELLO, KOLLER, 2003; GARCIA, YUNES, 2006).

2. Fatores de proteção – constituídos por características individuais ou comunitárias que podem reduzir o efeito de uma adversidade. Consideram-se atributos individuais positivos: o controle das emoções e dos impulsos, bom humor, elevada autoestima (concepção positiva de si mesmo), empatia (capacidade de perceber as situações emocionais dos outros), boa competência cognitiva, autonomia (certa independência), sentido e propósito de futuro (coerência e metas para realizações futuras), e habilidades sociais. (BORGES, KRISTENSEN, DELL'AGLIO, 2006).

No ambiente familiar e social, destacam-se como positivos o número de crianças – quatro ou menos – a segurança de afeto, a relação positiva com cuidadores que exerçam papel significativo, e a rede de apoio social.  (GARCIA, YUNES, 2006; PESCE, ASSIS, SANTOS, OLIVEIRA, 2004; KOTLIARENKO, CÁRCERES, FONTECILLA, 2009).

Estudos na área da Psicologia e Etologia Humana demonstram que indivíduos com melhor adaptação psicossocial tiveram pelo menos um adulto – familiar ou cuidador – que lhes dispensara cuidados e afeto de forma consistente, fundamentais para o desenvolvimento da capacidade de apego e para a construção de personalidade positiva. (CYRULNIK, 2001).

3.Vulnerabilidade – refere-se às suscetibilidades de indivíduos ou populações a um agravo, envolvendo tanto as condições individuais quanto as culturais e sociais em que ocorrem. Relaciona-se também com o grau de consciência que as pessoas têm de suas condutas. (DAGMAR, ESTERMANN, MELLO, VALADÃO, AYRES, 2006; AYRES, 2009).

4. Competência individual ou grupal – diz respeito à forma pela qual uma pessoa interage com os eventos ou pessoas, visando à resolução de problemas e à autorealização. (BORGES, KRISTENSEN, DELL'AGLIO, 2006).

 

Resiliência e cuidados à saúde de crianças e adolescentes

 

O enfoque do potencial de resiliência é fundamental na promoção da qualidade de vida e saúde, especialmente nos períodos de grande vulnerabilidade, o que acontece na adolescência (10-19 anos) e juventude (20 – 24 anos). (ASSIS, PESCE, AVANCI, 2006; KOLLER, LISBO, 2007).

Reforçar a capacidade de enfrentamento aos obstáculos e às situações negativas vivenciadas, isto é, empoderar a resiliência, significa promover os fatores de proteção e não apenas combater os de risco. Tal enfoque é imprescindível desde a atenção básica até os níveis mais complexos de assistência à saúde e deve ser empreendido por equipe multidisciplinar. (PESCE, ASSIS, SANTOS, OLIVEIRA, 2004; ASSIS, AVANCI, PESCE, NJAINE, 2005; ASSIS, PESCE, AVANCI, 2006).

A análise dos fatores relacionados ao processo de resiliência fica mais adequada quando considerado o modelo da Bioecologia Humana, pois integra o cotidiano do sujeito-ator de sua vida com a família e o ambiente. (CECCONELLO, KOLLER, 2003).

A Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano, ou Bioecologia Humana, foi elaborada por BRONFENBRENNER (1996), psicólogo alemão naturalizado americano. Para esse autor, o contexto bioecológico é subdividido em espécies de camadas, da mais próxima à mais distante da área de atuação da pessoa: 

Microssistema – ambiente imediato em que há importantes trocas afetivas com figuras de modelos relacionais e de poder. O indivíduo e a família nuclear formam este eixo central.

Mesossistema – representado por instâncias como a família extensiva, ambiente de moradia, escola, amigos, igreja, local de trabalho, segurança, violência urbana.

Exossistema – contém ambientes em que o indivíduo e a família não frequentam diretamente, mas cuja forma de funcionamento os afeta. É constituído pelas políticas públicas, Conselhos Tutelares, sistemas de Saúde, Justiça e rede de apoio social.

Macrossistema – é o sistema mais amplo e que influi em todos os anteriores, constituído pela cultura, ideologias, estado de paz ou guerra de um povo ou nação.

A abordagem bioecológica permite maior percepção da precariedade, das interconexões de fatores sobre o indivíduo, enfatizando a perspectiva sócio-histórica e temporal, além das possibilidades de superar desafios e barreiras que podem dificultar os processos de resiliência e agravar a vulnerabilidade. (KOLLER, LISBO, 2007).

Tome-se, por exemplo, a rede de apoio social do exossistema, que inclui desde a família extensiva até recursos de apoio: projetos educacionais efetivos, existência de profissionais e instituições acolhedoras que proporcionam reforço às estratégias de enfrentamento (coping) das situações de vida, ou seja, o empoderamento da resiliência. (ASSIS, AVANCI, PESCE, NJAINE, 2005; INFANTE, 2005).

Na abordagem cotidiana, os diversos fatores dos sistemas que compõem os ambientes por onde a criança ou o adolescente transita podem ser investigados por meio de anamnese expandida, ou abrangente. Esta inclui indagações sobre estrutura e dinâmica familiar, genograma, rendimento no aprendizado, relações na escola e em outros locais de sociabilidade, grupos de iguais, amizades, hábitos de fumar ou beber, adição a substâncias químicas, envolvimento com atos infracionais, fuga de casa, comportamentos fora de controle. Também devem ser investigados os componentes da rede social e de apoio afetivo, que podem ser úteis nas intervenções e orientações para o paciente e seus familiares. (FERNANDES, B.C., 2009)

 

Considerações finais

 

As pesquisas que enfocam este tema vêm mudando a forma de perceber o ser humano, ao constatá-lo enquanto protagonista de seu destino, pois que interage diante das variadas circunstâncias de vida. (INFANTE, 2005).

Portanto, a resiliência permite um novo olhar para os indivíduos em situações de risco. Implica em saber que é possível empoderar as atribuições saudáveis, individuais e comunitárias, implica em ter esperança e acreditar no trabalho para a melhoria da Humanidade.  

Referências

AYRES, J.R.C. M. Contextos Epidêmicos e Aspectos Sociais das DST/Aids no Brasil - Os Novos Horizontes da Prevenção.  VI CONGRESSO BRASILEIRO DE PREVENÇÃO DAS DST/AIDS - Belo Horizonte -Minas Gerais, Novembro de 2006.       

ASSIS, S.G.;  PESCE, R.P.;  AVANCI, J.Q. Resiliência. Enfatizando a proteção dos adolescentes. Porto Alegre: Artmed, 2006.

ASSIS, S.G.; AVANCI, J.Q.; PESCE, R.P.; NJAINE, K. Resilência na adolescência: refletindo com educadores sobre superação de dificuldades. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2005

BRONFENBRENNER, U. (1979) A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Porto Alegre, Artes Médicas, 1996

BORGES, J.L.; KRISTENSEN, C.H.;   DELL'AGLIO, D.D. Neuroplasticidade e resiliência em crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos. In: IN: DELL'AGLIO,  D.D.; KOLLER, S.H.; YUNES, M.A.M.  (org.) Resiliência e psicologia positiva:interfaces do risco à proteção.  São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006, p 259 – 283

CECCONELLO, A.M.; KOLLER, S.H. Inserção ecológica na comunidade: uma proposta metodológica para o estudo de famílias em situação de risco. Psicologia: Reflexão e Crítica. 2003;16(3):512-24

CICCHETTI, D. Preface. In: LUTHAR, S. S. Resilience and vulnerability: adaptations in the context of childhood adversities. Cambridge: Cambridge United Press, 2003, p x-xii. 

CYRULNIK, B. Resiliência, essa inaudita capacidade de construção humana. Lisboa: Ed. Horizontes Pedagógicos; 2001

DAGMAR, E.; ESTERMANN, M.; MELLO, D.F.; VALADÃO, M.M.; AYRES, J.R.C.M. "Você aprende. A gente ensina?" Interrogando relações entre educação e saúde desde a perspectiva da vulnerabilidade.  Cad Saúde Pública. 2006 jun; 22 (6):1335-1342.

FERNANDES, B.C. Anamnese Psicossomática em Pediatria. [publicação em internet] Artigonal, 05 de julho de 2009. Disponível em http://www.artigonal.com/ensino-superior-artigos/anamnese-psicossomatica-em-pediatria-1014644.html   Acesso em 02.3.2010.

GARCIA, N.M.; YUNES, M.A.M. Resiliência familiar: baixa renda e monoparentalidade. In: DELL'AGLIO, D.D.; KOLLER, S.H.; YUNES, M.A.M. (org.) Resiliência e psicologia positiva: interfaces do risco à proteção.  São Paulo, Casa do Psicólogo, 2006, p 117 -140. 

INFANTE, F. A resiliência como processo: uma revisão da literatura recente. In: MELLILO, A.; OJEDA, E.N. S et al. Porto Alegre: Artmed, 2005, p. 23 – 38

KOLLER, S.H.; LISBO, A.C. Brazilian approaches to understanding and building resilience in at-risk populations. Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America 2007; 16(2):341-356. 

KOTLIARENKO, M.A.; CÁRCERES, I; FONTECILLA, M. Estado de Arte en resiliencia. Disponível em: http://www.paho.org/Spanish/HPP/HPF/ADOL/Resil6x9.pdf  Acesso em: 2009 Nov 26.

LUTHAR, S.S.; ZELASCO, L.B. Research on resilience: a integrative review. In: LUTHAR, S. S. Resilience and vulnerability: adaptations in the context of childhood adversities. Cambridge: Cambridge United Press, 2003, p 510 – 549.

MANGRULKAR, L.; WHITMAN, C.V.; POSNER, M. Enfoque de habilidades para la vida para um desarrollo saludable de niños y adolescentes. Washington: Organización Panamericana de la Salud / Fundación W. K. Kellogg. Agencia Sueca de Cooperación Internacional para el Desarrollo (ASDI); 2001. 

MASTEN, A.S. Ordinary magic: resilience processes in development. American Psychologist, vol 56, No. 3, 227 – 238, march 2001.

PESCE, R.; ASSIS, S.G.; SANTOS, N.; OLIVEIRA, R.V. Risco e proteção: um equilíbrio protetor de resiliência. Psic Teoria Pesq. 2004, 20(2):135-143.

POLETTO, R.C.;  KOLLER, S.H. Resiliência: uma perspectiva conceitual e histórica. In: DELL'AGLIO, D.D., KOLLER, S.H., YUNES, M.A.M. (org.) Resiliência e psicologia positiva: interfaces do risco à proteção.  São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006, p 19 – 44.

YUNES, M.A.M. Psicologia positiva e resiliência: foco no indivíduo e na família. In: DELL'AGLIO, D. D., KOLLER, S. He., YUNES, M.A.M. (org.) Resiliência e psicologia positiva: interfaces do risco à proteção.  São Paulo, Casa do Psicólogo, 2006, p 45 – 68.

 

 

 

 

  

 

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    Palavras-chave do artigo:

    resiliencia

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    bioecologia humana

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    fatores de risco

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