Respostas Cardiovasculares No Repouso, Exercício E Após A Execução De Teste Cardiopulmonar Máximo: Um Estudo De Caso

Publicado em: 20/04/2009 |Comentário: 0 | Acessos: 7,615 |

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas o comportamento cardiovascular reativo ao exercício tem sido alvo de inúmeras pesquisas. Durante o repouso, o predomínio parassimpático reflete-se em níveis tensionais deprimidos, e em valores baixos de freqüência cardíaca. No exercício, diversos estudos demonstram a associação linear ou exponencial entre intensidade e respostas cardiovasculares (pressão arterial-PA e freqüência cardíaca-FC) de acordo com a intensidade dos exercícios, devido ao aumento do tônus simpático, principalmente como resposta à maior liberação de catecolaminas. Após o exercício, durante o período de volta à calma, nota-se uma diminuição da atividade adrenérgica, tendendo ao longo do tempo retornar a homeostase do organismo. Alguns estudos atribuem à queda brusca da FC à retirada simpática, tendendo ao longo do tempo sofrer uma maior influência da reativação parassimpática (Pierpont e Voth, 2004)

A variabilidade da freqüência cardíaca (VFC) pode de maneira indireta, fornecer dados sobre a função autonômica, através da interpretação dos intervalos entre cada ciclo cardíaco (R-R) em função do tempo ou através da análise da densidade do espectro de potência que descreve a distribuição (variância) em função da freqüência (Barreto et al., 1998). 

A diminuição da VFC constitui um importante fator prognóstico para uma maior probabilidade de eventos cardíacos em indivíduos previamente sadios e em portadores de cardiopatias (Barreto et al., 1998).  Em pacientes após infarto agudo do miocárdio (IAM), a redução da VFC já foi estabelecida como um fator de risco independente para eventos arrítmicos e mortalidade global (Barros et al., 2003). Esta diminuição da VFC está relacionada à hiperatividade adrenérgica e diminuição da atividade parassimpática cardíaca encontradas ao longo da convalescência do IAM. Embora o mecanismo que explique o aumento do risco, devido à desordem autonômica, não esteja claramente definido, existem evidências experimentais de um efeito protetor da estimulação vagal sobre a incidência de arritmias (Dixon et al., 1992) .

Em sujeitos aparentemente saudáveis é esperado que após o término dos exercícios haja uma redução maior que 12 batimentos por minuto, e que a curva de recuperação da freqüência cardíaca durante o período de recuperação sofrerá ajustes explicados primeiramente pela retirada simpática (curva exponencial) e posteriormente pela reativação parassimpática (Pierpont e Voth, 2004).

Objetivando observar de maneira direta a reatividade hemodinâmica de um homem aparentemente saudável, submetemo-lo a um teste máximo em cicloergômetro sob protocolo de rampa. 

MÉTODOS

O teste máximo foi realizado em laboratório de fisiologia do exercício e respeitado todos os procedimentos pré-participação inerentes à pesquisa com seres humanos. O sujeito foi submetido à um teste máximo de esforço em um ciclo ergômetro, sob protocolo de Rampa com incremento de carga a cada minuto, iniciando com carga inicial de 40 Watts e final estimada a partir de questionário investigativo do nível habitual de atividade física (IPAQ) em 175 Watts. A velocidade foi programada em 60 rpm até que os critérios para a interrupção do teste fossem atingidos, de acordo com as diretrizes sobre a realização de testes ergométricos da SBC (SBC, 2004).

As variáveis analisadas foram: pressão arterial (PA), através do método indireto ascultatório e freqüência cardíaca (FC), por cardiofrequencímetro de alta sensibilidade (intervalo R-R). As medidas de FC ocorreram intermitente durante o repouso (15 min), exercício (10 min) e volta à calma (10 min). A medida da PA de repouso foi realizada pós o sujeito permanecer deitado em decúbito supinado por 15 min. Durante o exercício, aferiu-se a PA em intervalos de 2 minutos, inclusive no pico do esforço. O teste de esforço teve duração de 10 min. Durante a recuperação pós-exercício, optou-se em monitorar a PA em intervalos de 2 minutos até o final do experimento (10 min).

Utilizaram-se índices de medida da VFC no domínio do tempo para analisar a dispersão dos dados em repouso, exercício e volta à calma, como o desvio padrão de todos os intervalos R-R (SDNN), o desvio padrão das médias dos intervalos RR normais a cada 5 minutos (SDANN), a média dos desvios-padrão dos intervalos RR normais a cada 5 minutos (SDNN-i) e a raiz quadrada da média do quadrado das diferenças entre intervalos RR normais adjacentes (Rmssd).

Para tratar os dados foi utilizado planilha eletrônica (MICROSOFT®- Excel).

RESULTADOS

Em geral, baixos valores de FCRep refletem uma boa condição funcional, enquanto que altos valores estariam aparentemente relacionados com distúrbios fisiológicos e predisposição para a ocorrência de doenças cardiovasculares (Kenney, 1985).

Os valores médios da FC de repouso obtidos (70,6±4) estão dentro de um padrão da normalidade, indicando integridade vagal e predomínio parassimpático (Fronchetti et al, 2006; referenciar).

As medidas no domínio do tempo expressaram o mesmo fenômeno de variação de batimentos cardíacos adjacentes, sob diferentes tratamentos formais dos dados experimentais. Assim, algumas associações entre os índices que traduzem a FC têm sido demonstradas, visando traduzir a variabilidade global e refletir a atividade parassimpática e simpática.

Os achados da presente coleta de dados corroboram com os da literatura quanto aos valores de SDNN (ver tabela 1 ) (Rassi,  2000; Fronchetti et al, 2006). Fronchetti et al, 2006 submeteram 20 homens (21,3 ± 2,6 anos) a um protocolo de teste máximo em ciclo ergômetro também utilizando protocolo de rampa e verificaram índices de VFC de SDNN (77,9 ± 26,4), SDANN (49,4 ± 18,7), SDNN-i (110,5 ± 34,5) e RMSSD (47,4 ± 24,0).

Durante o esforço foi possível verificar delta de variação de PAS de +34mmHg e da PAD + 4mmHg. Os valores aumentaram progressivamente ao longo do teste até atingir um pico de PAS de 164mmHg e de PAD de 94mmHg. A FC também aumentou exponencialmente durante o teste, com delta de variação de 120bpm e atingindo 190bpm no pico da atividade. As maiores correlações com o incremento de carga foram para a FC, seguido pela PAS (R=0,97 vs 0,96, respectivamente) (tabelas.2 e 3).

Já na fase de recuperação nota-se diminuição progressiva dos níveis tensionais, registrando já no primeiro minuto da recuperação ativa, diminuição de 26 bpm e em relação à PAS e PAD 24 mmHg e -4mmHg (Tab. 3 e 4), indicando bom desempenho autonômico.

Em relação aos transientes da função autonômica durante a recuperação, não foi possível observar em qual momento ocorreram a retirada simpática ou a reativação parassimpática. Talvez a utilização de métodos de análise da VFC mais sofisticados seria necessária para inferir sobre essa questão.

 Tabela 1: Valores médios e desvio-padrão das variáveis avaliadas durante o repouso

Variáveis - Valores

FC (bpm) - 70,6±4

SDANN - 69±45

SDNN-i - 55,6±24

rMSSD - 29,3

 

Tabela 2. Variáveis Hemodinâmicas de pico durante teste de esforço

Variáveis  estágio /2º / 3º / 4º / 5º / 6º / 7º / 8º / 9º / 10º  

Carga (Watts)  40    /55 / 70 /85 /100/115/130 /145/160/175

FC (bpm)       103   /105/115/119/128/140/155/170/182/190

PAS (mmHg)           130 /     140/       156/       160/       164

PAD (mmHg)           90 /       96 /        94 /        94/         94

Duplo Produto     13230     16660      21840     25600     31160

(mmHg.bpm)

 

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Verificou-se que o comportamento da FC e PAS e PAD de repouso, durante o exercício e no período de volta à calma comportaram-se de forma esperada, já que o sujeito submetido ao teste nega histórico de doenças cardiovasculares, assim como em seu histórico pregresso, é verificado grande lastro desportivo. Assim, analisando a reatividade das variáveis ora analisadas é possível determinar integridade do nervo vago, explicado pela FC de repouso < que 80bpm, assim como, em um delta de variação da FC após o 1º min de 26bpm. A pequena razão de aumento da PAS pode estar relacionada ao destreinamento do sujeito, já que o mesmo encontra-se afastado de atividades físicas regulares há mais de 1 ano.

REFERÊNCIAS

Barreto ACP, Negrão CE, Randon MUPB. Comportamento da freqüência cardíaca e da sua variabilidade durante as diferentes fases do exercício físico progressivo máximo. Arq Bras Cardiol. 1998, 71(6): 787 – 792.

Barros MVG, Reis RS (2003). Análise de dados em atividade física e saúde. Londrina: Midiograf.

Dixon EM, Kamath MV, McCartney N, Fallen EL (1992). Neural regulation of heart rate variability in endurance athletes and sedentary controls. Cardiovasc Res 26: 713 –719.

Fronchetti L, Nakamura F,  Aguiar C, Oliveira F. Indicadores de regulação autonômica cardíaca em repouso e durante exercício progressivo. Rev Port Cien Desp 2006(1) 21–28.

Pierpont GL, Voth EJ. Assessing Autonomic Function by Analysis of Heart Rate Recovery from Exercise in Healthy Subjects. Am J Cardiol 2004;94:64–68

Kenney WL (1985). Parasympathetic control of resting heart rate: relationship to aerobic power. Med Sci Sports Exerc 17: 451 – 455.

Rassi,  (2000). Compreendendo melhor as medidas de análise da variabilidade da freqüência cardíaca. Jornal Diagnósticos & Cardiologia. 20. ed., abr/mai/jun. 2000. Disponível em: . Acesso em: 6 de maio de 2008.

SBC. Sociedade Brasileira de Cardiologia. II diretrizes de Ergometria. Arq Brás Cardiol. 2002, (78) – supl 2.

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    Palavras-chave do artigo:

    variabilidade da frequencia cardiaca

    ,

    sistema autonomico

    ,

    transiente final

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