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FERNANDO DE NORONHA: UMA ILHA DE FANTASIA - III


Sem deixar que o pessimismo me dominasse e determinado a encontrar alguma coisa que justificasse os preços exorbitantes dos passeios de barcos, das trilhas e dos mergulhos, saí logo cedinho num pequeno grupo liderados por um guia mal-humorado que deveria ter ficado de porre na noite anterior no famoso Forró do Cachorro, próximo à praia do mesmo nome. Sem muito papo ou qualquer animação, o guia, que mais parecia um sargento ranzinza nos conduzia como a um pelotão de recrutas retardados, nos levando por um caminho dentro da mata rala de verde desbotado, onde era fácil ver-se o ressequido dos galhos e das plantas por falta d’água. Enquanto caminhava beirando os paredões dentro do Parque Nacional Marinho, me deslumbramos com a Baía do Sueste, descendo para a Praia de Atalaia onde segundo o guia, o ex-presidente FHC quando em visita a Ilha, mandou que a praia ficasse fechada por um dia inteiro, para permitir que apenas sua netinha se deliciasse com um banho de mar refrescante. Se fosse na mesma época em que lá estivemos, quer pelo desconforto das pedras e violência das ondas que varriam a pequenina praia, eu arriscaria dizer que a pobre menina recebeu o tal banho de mar como um de castigo e teria ficado traumatizadao pelo resto da vida. Torço para que nada disso tenha de fato acontecido.

A caminhada de pouco mais de 4 quilômetros pelas encostas escarpadas da Ilha, reanimou-se o suficiente para poder afirmar sem medo de errar: a Ilha é mesmo uma fantasia. Nada de tão soberbo que não possa ser visto em outros litorais brasileiros. Nada de tão deslumbrante que nos faça querer voltar lá para ver o que não foi visto.

Praias cheias de pedregulhos que machucaram meus pés e joelhos. Ondas violentas que tentavam nos arrastar para o mar raivoso, nos expulsaram da Praia do Cachorro por volta do meio dia. Nenhuma infra-estrutura básica. Nada para se comer estava sendo oferecido nas praias. Quanta falta nos fez uma simples barra de cereais!!

Mergulhos autônomos para ver o fundo do mar e contemplar as belezas marinhas fauna e flora? Estes, além de muito caros, são absolutamente inócuos se a visibilidade da água não for boa. A nossa pouca sorte não nos deixou ver mais do que 8 metros adiante e todos que mergulharam em nosso grupo parecem ter visto a mesma arraia sonolenta sorrindo de deboche para os mergulhadores que como eu quis fotografá-las. Tinha-se a impressão de que o fundo do mar de Noronha tinha se escondido, deixando para se apresentar pujante e maravilhoso na alta estação, aos turistas endinheirados que acorriam às águas na esperança de encontrar alguma coisa parecida com os filmes e folhetos de viagem.

E o que falar da cidade? Na verdade encontramos uma velha vila, com apenas três construções antigas, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, o Centro de Cultura da Ilha e um casarão, antigo presídio – hoje sede da administração do lugar. Estes relativamente conservados como que para justificar a taxa de preservação ambiental. O casario é novo, estilo casa de fazenda, transformadas em pousadas para abrigar a massa de turistas suas dependências. Por uma noite, paga-se por casal uma média de 200 a 400 reais, com direito a um magro café da manhã com biscoitos, pão comum, que podem ser recheados com presunto e queijo. Algumas pousadas têm a aparência de albergues ou casas temporárias de trabalhadores da construção. Outras, as mais caras possuem chalés ou as melhores como a que pertence ao apresentador de TV Luciano Huck que cobram 1.200 por uma noite, são poucas, um privilégio de quem pode se nos melhores hotéis 5 estrelas do mundo. Seja como for, quem vai a Noronha tem que estar preparado para surpresas. Pode ser atropelado pelos ensandecidos bugueiros e motoristas das operadoras de turismo com seus barulhentos microônibus fazendo das ruas estreitas pistas de fórmula UM. Pode-se encontrar um cão imenso na Praia do Cachorro, cheirando todos os que ali chegam, como se a praia lhe pertencesse. Pode-se dar de cara com um mergulhão que desce como uma bala dentro da água para fisgar uma sardinha pouco esperta. Pode-se encontrar um amável anfitrião, solicito e pronto para ajudar os hóspedes visitantes ou como a senhora de aparência cansada que nos recebeu na segunda melhor pousada da Ilha, muito mais preocupada em saber quando iríamos partir do que em nos acolher com atenção como manda a etiqueta hoteleira. Parece que os Noronhenses estão muito longe da civilização e talvez por isso tenham se esquecido das leis de ouro do bom atendimento que faz o cliente desejar voltar. Em Fernando de Noronha pode-se até mesmo se encontrar golfinhos e tartarugas marinhas passeando pelo litoral. Mas não foi desta vez que os encontramos nem mesmo nos vários mergulhos que fizemos.

Naquele lugar, receamos que um dia cobrarão pelo ar que respiramos ao desembarcar. Tudo é cobrado sem dó nem piedade e o que é pior, não vale o que se paga.

Não fui a Fernando de Noronha apenas para ver golfinhos ou tartarugas marinhas. Os parques nacionais espalhados pelo Brasil estão cheios desses maravilhosos animais que encantam as crianças tanto quanto aos adultos. Fui para relaxar, caminhar, nadar, tomar sol, ficar deitados na rede olhando o mar mudar de cor e mesmo aproveitar os matizes de um pôr-do-sol maravilhoso, igual ao que estamos acostumados a ver em Brasília, cidade onde moro, e que apesar de não ter mar, nos oferece tardes tão deslumbrantes como a que vimos do Mirante do Bar da Galés perto da praia do Meio. Uma justiça feita sem ressentimentos.

Seja como for, valeu a brilhante e divertida palestra feita por um professor do Projeto Tamar e Ibama, que nos fez relaxar falando da sua imensa experiência com tubarões. Valeu a caminhada nas pedras até alcançarmos a Caeiras e chegarmos ao Buraco da Raquel, ponto de encontros amorosos dos soldados incumbidos de vigiar os presos nos tempos de colônia penal.

Mas o que realmente importa? Matei o meu desejo de conhecer a tão badalada Ilha de Fernando de Noronha, que hoje posso afirmar sem medo de cometer qualquer injustiça, é mesmo uma Ilha de Fantasia. Podemos fantasiar que lá tudo é mais belo e diferente (alguns até para justificar o preço muito alto da viagem) dizem que voltaram encantados, fascinados e deslumbrados com tudo o que viram. É um direito que todos têm inclusive de enganarem a si mesmos.

(continua)

Mathias Gonzalez

Mathias Gonzalez, brasileiro e naturalizado australiano, autor de 132 livros dedicados à filosofia, psicologia e educação.
-> Psicólogo clínico, organizacional e escolar.
-> Pós-graduado em Psicopedagogia.
-> Especialista em Educação a Distânci.
-> Mestre em Gerontologia;
-> Mestre em Tecnologia de Comunicação e Informação.

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