Mathias Gonzalez, brasileiro e naturalizado australiano, autor de 132 livros dedicados à filosofia, psicologia e educação.
-> Psicólogo clínico, organizacional e escolar.
-> Pós-graduado em Psicopedagogia.
-> Especialista em Educação a Distânci.
-> Mestre em Gerontologia;
-> Mestre em Tecnologia de Comunicação e Informação.
Daí, o que se seguiu foi um acúmulo de aborrecimentos em cascata como se os espanhóis estivessem aborrecidos, estressados, esgotados e indiferentes ao dinheiro do turista.
ATOS 4 a 10 - Será que preciso contar que ao pedir um lanche no quarto o garçom me exigiu pagamento em dinheiro, depois de terem demorado quase duas horas para servir um mero sanduíche de salmão? Preciso dizer que faltando um dia para completar a minha estada feita por reserva, recebi a conta com a solicitação de deixar o recinto imediatamente? Preciso dizer que fui para uma pizzaria e um tipo que parecia ser o dono perguntou-me se eu ia levar a pizza para casa, porque se eu não fosse ele não poderia me servir ali. Diante da minha perplexidade, ele argumentou que eu não conseguiria comer uma pizza em dez minutos... ele não poderia que fechar o restaurante comigo lá dentro. Apesar da aparente justificativa, havia outros clientes sendo atendidos e servidos nas mesas. Eles com certeza levariam mais do que 30 minutos para terminar suas refeições. Preciso contar que ao entrar em outro restaurante e pedir um suco de melocotón e ao pegar um pacotinho de açúcar numa cestinha que estava nobre o balcão, a gerente gritou ordenando para que eu largasse o açúcar, confundindo-me com os “açucarillos” - como ela disse depois envergonhada - mendigos que andam pelos restaurantes pegando açúcar e sal para comer? Preciso dizer que um dia, pedindo orientação sobre uma rua, um casal de idosos (tipicamente madrilhenos) me informaram o mesmo lugar em direções opostas, deixando-me confuso e minutos depois eu os encontrei no lugar para onde eu ia, a 300 metros do ponto onde os interpelei, numa clara demonstração de que não queriam minha companhia? Será que vale a pena dizer que vi um brasileiro receber uma bengalada de um velhinho espanhol, só porque este não sabia explicar direito o que desejava, já que não falava o idioma do país? Tenho que dizer do desprazer ao entrar no trem de alta velocidade indo de Madri para Barcelona, para descobrir que me deram o pior lugar do trem, sem mesa para que eu usasse meu computador e de frente para outros assentos,tornando a viagem absolutamente desconfortável.... mesmo tendo outros lugares melhores livres nos vagões? Que tive que brigar para sentar-me numa poltrona livre, sendo todo o tempo advertido pelo impertinente cabineiro, “que debia volver para mi silla para no causar problemas...” Bem, acho que chega por aqui.
A PARTE BOA
Claro que não posso jamais falar mal da fascinante Barcelona, capital da Catalunha, que ferve nas Ramblas, avenidas próprias para passear onde vi muita gente bonita, jovem e estrangeira perambulando ruidosamente; também encantou-me caminhar pelo centro de compras e ver as vitrines das lojas do Passeig de Grácia; no mercado La Boqueria (ou Sant Josep), qualquer um fica boquiaberto. Idem vendo as inúmeras obras de Antoni Gaudí, que plasmou formas endemoniadas, classificadas entre o modernismo e o art nouveau, sobretudo no século 20. E, na mescla de épocas que a caracteriza, o destaque de Barcelona é a catedral no bairro Gótico, algo imperdível naquela cidade, da mesma forma como fiquei boquiaberto com a megalomaníaca construção chamada Sagrada Familia, uma igreja-museu que já está sendo construída a vinte anos e levará mais cinco para ficar construída, saída da prancheta de Gaudí. O curioso é que, Barcelona transpira modernidade, no design, nas cores excêntricas, na sua aura vanguardista apesar de seus residentes insistirem em falar o catalão, (um castelhano falado com a boca cheia de farofa). Por outro lado, Madri mantém seu aspecto mais sisudo, de sede do governo e da monarquia e está mais fulgurante, falando castelhano, entronizada como uma metrópole européia que fatura em euro. Com avenidas largas e limpas, prédios clássicos e elegantes, muita gente falando alemão e japonês em todo lugar e reluzentes carros de luxo circulando pelas ruas, percebi que a cidade parece um tipo de Primo Rico da comunidade latina mundial, como se fosse aquele membro da família que conseguiu vencer na vida!, Percorrer as ruas daquela cidade dinâmica e moderna foi um prazer, começando por um monumento chamado de Puerta de Alcalá, situado no centro da Calle Alcalá, que atravessa a cidade no sentido leste-oeste e mais adiante tranforma-se na Gran Via. Estas duas avenidas formam o coração da cidade. Degustei uma paella madrileña com bastante tabasco, num restaurante tipíco na Puerta del Sol, uma área deliciosa da cidade onde os cafés e restaurantes se enfileiram nas calçadas e se pode comer de todas as iguarias européias, ouvindo os artistas de ruas com seus violinos e acordeões mágicos, tocando desde “oh solemio, a Nona de Beethoven, os Beatles ou Madonna até as típicas canções nortenhas”. Um show a parte regado a moedas de um e dois euros recolhidos nos chapéus dos andarillos da noite.
Ir à Madri e não assistir à um show de música Flamenca, é como estar no Rio de Janeiro durante o Carvanal e não assistir ao desfile das escolas de samba. Não cometi essa imperdoável desfaçatez e fui numa noite morna e agradável assistir um show de dança Flamenca que é um estilo musical com raízes na região espanhola da Andaluzia, bem como das tradições ciganas. Assisti a um grupo de dançarinos fenomenais, trajando roupas típicas, acompanhados por guitarras acústicas, e ritmo marcado pelas castanholas e palmas. Um espetáculo bonito, empolgante... inesquecível que mereceu os 25 euros do couvert plus 40 euros que é cobrado à parte pelo jantar típico do Café de Chinitas. O espetáculo é muito bonito e é praticamente impossível não sentir um arrepio na coluna, tal é empolgação e furor transmitido pelos bailarinos. O único problema é que, infelizmente, o lugar não tem área reservada para não fumantes, assim todos têm que compartilhar o show e a refeição com a fumaça de cigarros e cigarrilhas dos outros espectadores, já que na Espanha ainda fuma-se muito e parece não haver muita preocupação em reservas lugares para os não consumidores passivos do tabaco.
Passei uma tarde inteira no principal parque da cidade chamado Parque del Retiro, uma área verde, formada por 120 hectares de belos jardins, gramados, árvores centenárias, barquinhos para alugar, shows de marionetes e apresentações teatrais e de música. Mereceram centenas de fotos de destaque o mausoléu de Alfonso XII, o Jardim de Rosas, o Palacio de Cristal, (cuja réplica temos em Curitiba-PR),o Palacio de Velasquez, a Casa de Vacas e as árvores retorcidas do jardim real.
No evento em que participei, conversei com um rapaz que parecia o Evo Morales (aquele presidente índio-boliviano que está prendendo os gases), seu nome é Hernandez, é mestrando em Educação de uma famosa universidade madrilenha. Segredou-me que desde que chegou ao país, antes mesmo de abrir a boca já estava sendo discriminado. No próprio ambiente acadêmico, o segregam, o isolam e fazem troça do sotaque dele. Dizem que ele vive num país subdesenvolvido e desvalorizam suas idéias e pontos-de-vista. Perguntam-lhe todo o tempo onde ele esconde a cocaína e alguns até pensam que ele é um narcotraficante. Hernandez sentiu na pele o que é nascer num país sul-americano, ter a pele queimada de sol e feições indígenas. Só conseguem ver a embalagem do homem. Foi assim que me senti nos 8 dias na Espanha. Mas, não deixei por menos. Em todas as situações em que me senti discriminado, reagi à altura, esperneei e fiz valer meus direitos humanos.
ATO FINAL- Foi no aeroporto de Barajas, quando o taxista mal educado sequer me ajudou retirar as malas do táxi. Quis me cobrar 2 euros por cada mala que eu levava inclusive o meu notebook. Reclamei e não paguei. Foi quando saí do táxi e já ai sobraçando minha bagagem que ouvi um grito atrás de mim vindo do taxista que jazia em pé atrás do carro: “ êeeeee señor... cerre a puerta!!!” Eu não havia fechado a porta do seu taxi-mercedes-benz. Bastaria ele dar um passo a frente para fechá-la, mas era o meu dever, minha obrigação fazer isso. Olhei para trás e perdi a compostura austro-brasiliana e respondi com um ar de deboche: “ Vaya a la mierda!!!” . E disparei em direção ao portão de embarque, temendo a qualquer hora uma dupla de policiais armados aparecerem com algemas alegando desacato ao pacato cidadão espanhol que fora achincalhado em sua jornada de trabalho.Mas depois, relaxei... eu já estava indo embora e parece que tudo o que eles mais queriam era que eu estivesse deixando-os em paz. É o que pretendo fazer nos próximos 50 anos. Madri nunca mais. Farei meu doutorado no Canadá. PARLEZ VOUS FRANÇAIS AU ANGLAIS? (Que chique não é?).


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NO MÁS ME ENCANTA ESPAÑA!!! - Parte II
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